quarta-feira, 29 de junho de 2011

Musica e Expressão pelo Movimento - Entrevista

Clóvis Borges Borges, querido amigo, instrumentista e professor de musica, formando da Faculdade Mozarteum de São Paulo no curso de bacharelado em Violoncelo, no dia 15/06/2011.

Local da entrevista : Sala de aula da escola Arte Music

Quais são as influências que a música te provoca quando você toca?
Na música, na verdade, você tem que incorporar o instrumento, para que o seu corpo  seja uma extensão do instrumento para poder soar bem, a relação é física mesmo, e acho que essa relação deve ser bem trabalhada.

E que forma, no formato que a gente tem de aula você acha que propicia esse movimento do corpo com o instrumento ou não?
Quando eu estou dando aula sim, quando eu estou tendo aula não. Quando eu estou tendo aula eu percebo um descaso que o professor teve comigo que eu tento não passar para o aluno, e acho que o jeito de pegar no instrumento não é tão importante quanto a própria anatomia em si do instrumento, ou seja, se a corda está muito alta, se está muito baixa, sendo que às vezes você fica 2, 3 anos com a corda alta e o seu professor não fala, aí você vai dar aula para um aluno e você vê que a corda está alta e você fala.

Então, o professor não se preocupa com essa relação de tornar o instrumento confortável para tocar?
Na verdade, como eu comecei um pouco tarde a estudar, e na maior parte dos meus estudos foi auto-didata, então eu acho que os professores pensam que eu já sei das coisas, então eles acabam não falando, porque eles acham que tem que falar só para as criancinhas,e eu acho que eles pecam nesse sentido, de não falar porque eles acham que eu já entendo, que eu já sei. Tanto é que quando a gente entra na faculdade, por exemplo, o pessoal acha que você já sabe harmonia, contraponto e que só entrou na faculdade para tirar o diploma, e às vezes não é isso. Às vezes você chega lá sem saber harmonia, toca prá caramba sem saber harmonia, porque seu instrumento é solo, e vai ter que aprender harmonia lá, e eles não estão preparados para ensinar, eles estão preparados para te fazer passar na prova.

Como você acha que o seu corpo se mostra nas aulas que você faz, quando você está dando aula e quando você está tendo aula? Você acha que pelo conhecimento que você tem, você acha que seu corpo ainda não está adaptado o suficiente para tocar bem o instrumento e precisa ainda ser corrigido?
O instrumento que eu toco, o violino (eu não toco mas eu sei dar aula), eu acho que o violino é um dos instrumentos mais esquisitos com relação à postura, e o cello também. Não tem como dizer que o cello não é esquisito, e acho que sempre vai ter o que se corrigir. Eu acho que nunca vai chegar o momento que eu vou falar que o cello incorporou no meu corpo que nos tornamos um só. Pode ser que chegue, mas eu não estou sentindo tão próximo assim. Eu acho que ainda tenho muito que me adaptar ainda.

Como você procura manter o seu corpo para uma boa execução?
Relaxado, mas nem sempre acontece. Às vezes ele fica mais tenso do que relaxado.

Quais são os melefícios dessa atitude musical?
Dor no corpo: no braço, no ombro, na coluna, no dorso, às vezes até dificuldade de respirar.

E com relação ao tempo que o músico tem que se dedicar, você acha que ele deve se preocupar com isso? E essa busca pelo relaxamento interfere no som?
Eu acho que se todo músico buscasse isso primeiro, ao invés de buscar sonoridade e escutar quem toca melhor, quem toca pior, tocaria bem melhor se se preocupasse primeiro com o corpo, em se adequar, à posição certa do instrumento, em tocar incorporando o instrumento, em ser a extensão do instrumento. No entanto, se o professor fica falando 2 semanas sobre isso, o aluno pensa que o professor está enrolando, e acho que a postura é muito importante. Tanto é que a postura tem  que ser bem trabalhada, tanto quanto a sonoridade, o que não é feito.

Quais são as vantagens e as desvantagens da postura erudita? Da maneira como você segura o instrumento? Quais são as modificações que você tem que fazer no seu corpo para você conseguir tocar?
Eu acho que o meu instrumento não tem diferença entre o popular e o erudito na hora de tocar. O violão já tem.Você pode ficar mais despojado, de uma maneira que você pode ficar mais relaxado e aí você toca. E para tocar as peças do erudito no violão, você tem que ter a posição do erudito. No violoncelo, não tem postura erudita e popular, só tem postura erudita, o jeito de pegar no instrumento é igual.

Como você busca equilíbrio entre corpo e mente no seu fazer musical?
Eu acho que tem que soar naturalmente. Eu não acredito que eu deva buscar um caminho (se eu sentar na cadeira x ou na cadeira y eu vou tocar melhor). Às vezes eu vejo um lugar que ficou melhor e tento fazer isso mais vezes nesse lugar, nessa posição, a coluna mais encostada no encosto da cadeira ou não, às vezes você senta no encosto da cadeira e não favorece, e em cada lugar que você vai tocar tem uma cadeira diferente. Acho que o ideal seria você levar a cadeira que você se acomodou no estudo para todo lugar (levar o violoncelo e a cadeira, por exemplo). A cadeira que eu gosto de tocar é a cadeira que eu estudo, onde me adaptei com a altura. Então eu pesquiso se eu vou encostar ou não, para onde o assento joga a minha coluna, se sempre mais pra frente, sempre mais pra trás...Fiz umas adaptações na minha cadeira para eu poder ter minha coluna jogada para frente, porque tem cadeira que joga a coluna prá trás para você encostar na cadeira, e para tocar é exatamente o contrário, a coluna deve ser jogada para frente.Tem violoncelista que leva um apoio de uma espuma bastante densa ou de madeira para apoiar as costas, para ficar com o bumbum para trás e a coluna inclinada para frente, porque nenhum designer desenha uma cadeira especial para tocar violoncelo. Deveria haver esse tipo de preocupação no teatro, em ter cadeiras apropriadas para jogar a coluna dessa forma, e não tem.

Como você sente e percebe o seu corpo quando você está dando aula?
Normalmente, eu dou aula de pé e às vezes sentado, mesmo porque as minhas aulas não duram 45 minutos, às vezes, dependendo do aluno chega a durar até 3 ou 4 horas, então não tenho preocupação de ficar na postura correta, porque eu não uso o instrumento para dar aula, não dou aula por imitação.

E quais são as orientações que você dá aos seus alunos sobre a postura para tocar o instrumento?
Eu passo o que foi passado prá mim, cada professor passa de um jeito a maneira ideal para segurar o arco,  mas acaba resultando que o aluno vai achar o jeito dele; da maneira mais parecida que a gente faz, mas ele tem que encontrar o jeito dele. O cello, por exemplo, oferece muita resistência no começo, mesmo porque não tem afinação, é esquisita a maneira de pegar e demora pra quebrar a resistência; mas depois que quebra a resistência, eu acho que vai bem, mas no fim, o aluno é que acaba descobrindo sua maneira mais adequada de tocar. Eu só oriento no sentido de como é a postura, se deve sentar na ponta da cadeira, ou seja, eu oriento até a página 10 (na maneira de falar). Agora, quando eu vejo que o aluno está com uma postura que ele se sente bem, está soando bem, se ele estiver sentado no encosto da cadeira, eu deixo. Eu já fiz várias experiências com o cello, tocando-o de várias maneiras diferentes, em pé, sem o espigão, e acho que se o cello fosse apoiado no pescoço como o sax, por exemplo, acho que ficaria até melhor de tocar, mesmo porque não é todo o chão que tem um buraco para apoiar o espigão, então ele escorrega.

Como foi a sua relação quando mudava de professor,com relação à postura, ao segurar o arco?
Na verdade, o meu primeiro professor me ensinou a segurar o arco de uma maneira que o segundo professor não concordou. Então ele mudou, e achei diferente, achei melhor, e mudei. Não porque eu achava que o outro estava errado, mas porque a sonoridade realmente ficou  melhor pra mim. Então o terceiro falou que realmente estava melhor, e trabalhou a sonoridade A busca é sempre pela sonoridade, o jeito que você vai pegar no arco não importa, se a sonoridade está legal, não importa a escola, acho que você tem que achar prá tua mão a posição que fica melhor, de uma maneira que não doa, porque se doer está errado.

Qual a importância que você atribui ao gestual musical, seja no lecionar, seja no tocar?
Reger ou o manosolfa, eu acho importante, porque o aluno vai se deparar com algumas situações em que é necessário o conhecimento do gestual da regência. Se ele não tiver contato com a regência agora, mais tarde ele não vai saber como se comportar, porque olhar para o regente, é uma tarefa que exige um pouco de prática. É importante o aluno acostumar desde cedo com essa prática.

A postura para tocar é igual para todos os alunos?
Não. Cada uma tem que procurar a postura que se adéqüe melhor e que não doa. O importante é não doer.

É possível dissociar a linguagem gestual da linguagem musical?
Tanto um quanto o outro tem que ser bem natural, porém acho que não, pois um está ligado ao outro, inclusive a respiração que é muito importante na hora de tocar.

Você acha que a escola está preocupada com a expressão corporal? Você acha que ela pode auxiliar no aprendizado musical?
Acho que essa preocupação é do professor, a escola não pode ser responsabilizada. De repente a escola poderia fazer reuniões com os professores para alguma orientação nesse sentido. 
Ás vezes, o aluno não está preparado para receber essa orientação, existe uma pressa muito grande, em tocar, na segunda aula, o aluno quer sair tocando, então depende também do aluno aceitar receber essas orientações.



Minhas observações sobre a entrevista 


A entrevista me fez relembrar conceitos e lições adquiridas durante esses anos em que estudo música.
Me fez perceber que me sinto impaciente quando estou ensinando, apesar de ter a consciência da importância de uma postura correta, sabendo que demora um certo tempo para sentir que o violino está somente encaixado no pescoço, sem tensão.
É muito estranha a sensação de tocar um instrumento que não se vê, só se sente, e que todo o movimento é feito somente pela memória tátil. Porém, depois de um certo tempo, essa sensação se torna tão familliar que não lembramos das dificuldades do começo do aprendizado. 
Quando a gente estuda um instrumento, na verdade, estamos nos conhecendo, conhecendo melhor os nossos limites e ultrapassando nossas dificuldades; pois a música nos leva para uma viagem interior, dia a dia, nos fazendo enxergar nossos defeitos, nossas qualidades, onde somos atraídos pelo belo, pelo perfeito, pelo intocável, na busca incessante por essa luz que existe somente dentro de nosso interior.







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