sexta-feira, 1 de julho de 2011

Musica e Expressão pelo Movimento - Fichamentos

A Música, o Corpo, e as Máquinas
                                                                                                                          Fernando Iazzetta

Música, técnica e tecnologia sempre estiveram ligadas, não apenas em sua produção mas também com relação ao desenvolvimento de sua teoria e ao estabelecimento de seu papel cultural. Devida às descobertas de aspectos fisicos e cognitivos do som,  ao acesso à energia elétrica barata e à aplicação das tecnologias eletrônica e digital na geração sonora artificial, essa relação se tornou mais intensa a partir do século XX.
A maneira de se produzir o som até o século XIX era mecânica; a relação instrumentista/instrumento era imprescindível, pois somente era possível ouvir música se alguém tocasse ao vivo, naquele exato momento. Ficava na memória a lembrança, para quem ouvia, do exato momento em que o som era produzido, da maneira como era produzido, do gesto do intrumentista ao tocar. Agora, é possível se produzir som sem a presença de instrumentos mecânicos,utilizando apenas osciladores eletrônicos contidos em um sintetizador. Também se ouve música sem ter instrumentista ao vivo, por meio de gravação. Agora, pessoas que não estão ligadas à performance, propriamente dita, interferem na produção de um disco, não sendo, às vezes, necessária a presença do músico.(...)
(...)Porém, as realidade física, biológica e social dessa presença empresta à performmance musical, tão imateria e intangível, uma espécie de materialidade.

Música Mecanizada

A música muda de função, deixando de ser produzida para ser tocada para ser ouvida, e os processos de composição e interpretação passam a ser os meios pelos quais isso se realiza.
Quando surgiram os primeiros aparelhos fonográficos no final do século XIX, o padrão de escuta que esses aparelhos queriam reproduzir era baseado na experiência auditiva da época: as apresentações ao vivo(motivo pelo qual foi dado o nome de alta fidelidade). Com o passar do tempo, o modelo de referência de escuta mudou, e o termo fidelidade passou a ser designado ao padrão imposto pela própria tecnologia de gravação. Hoje, o  reprodução ao vivo passou ter como referência  as gravações reproduzidas pelos meios de aparelhos fonográficos, como o rádio, o disco, o cd e o dvd.
A partir daí, a possibilidade de escuta de um número infinitamente maior de estilos musicais, inclusive de outras nacionalidades culminou no que chamamos hoje de world-music.
Para o ouvinte, essa adaptação ao meio sonoro a que estamos expostos sempre será dada como referência, pois em todas as épocas, a maneira que se fazia música era característico às condições da época, inclusive no que tange às condições do próprio instrumento em que a música era reproduzida. 
Sempre haverá essa dualidade do antigo com o novo, pois em todas as épocas, os avanços na área tecnológica, tanto no que tange o desenvolvimento de instrumentos de melhor qualidade quanto no que tange o desenvolvimento de aparelhos digitais, se fará presente.

O Gesto Musical


A segunda alteração na produção sonora é com relação ao gesto musical. Movimento este que é capaz de expressar algo.
Diferente de movimentos repetitivos, como os que são feitos ao digitar ou operar uma máquina, o gesto é capaz de modificar o resultado final de uma performance, de acordo como gestos produzidos pelo instrumentista.
Distinguem-se também os gestos físicos dos gestos mentais, sendo que o primeiro refere-se à produção do som enquanto fenômeno físico, ação causal entre ação gestual e seus resultados sonoros, e o segundo está relacionado aos processos de composição, interpretação e audição.
Em resumo, o gesto físico está ligado mais diretamente à interpretação e o gesto mental à composição.

Do Gesto Instrumental à Acusmática

A música sempre teve uma relação direta com o desenvolvimento dos instrumentos, sendo que o compositor sempre utilizou dos recursos tecnológicos que estiveram à sua disposição para elaborar suas composições. De Bach a Beethoven, os instrumentos disponíveis tinham recursos diferentes, cada um à sua época, o que pôde, de uma certa forma, contribuir com o desenvolvimento da música de cada período em questão.
Até há pouco tempo atrás, a produção musical era necessariamente realizada através da performance, do trabalho dos músicos sobre seus instrumentos e, portanto, o desenvolvimento da habilidade técnica dos instrumentistas sempre foi uma meta importante na educação musical. Mesmo o aprendizado de composição ocorria geralmente após uma razoável prática instrumental, ou seja, estava ligado ao corpo do instrumento e instrumentista, relacionando-se com os músculos, nervos e matéria vibrante que compõem essas fontes sonoras.Com o surgimento das tecnologias eletrônicas e digitais, esse conhecimento pode derivar de espreiências praticamente restritas ao domínio mental, descorporificadas, sem relação com a fisicalidade de objetos materiais, gestos e movimentos implícitos na performance de um instrumento. 
Com relação ao som produzido por instrumento de orquestra, ao escutar não se têm dúvida com relação ao timbre do instrumento e à qualidade do gesto do instrumentista. Já com relação ao som digital, muitas vezes a dúvida em relação ao timbre é uma constante, pois a intenção é realmente destruir qualquer semelhança com o som produzido pelo instrumento acústico.
Ao desviar o foco do gesto instrumental para a atitude acusmática, onde se ouve o som sem que se identifique a fonte, a música eletroacústica tende a perder a dramaticidade gerada pela presença do intérprete com sua gestualidade; motivo pelo qual a cada vez mais os compositores incluem intérpretes humanos atuantes interativamente com o material eletroacústico de suas obras.
A cada vez mais o gesto se distancia do som, uma vez que às vezes fica difícil saber ao certo, inclusive, se o botão do aparelho eletrônico foi acionado ou foi apenas uma modificação feita pela própria máquina.

A Luteria Eletrônica


Ondes Martenot et Theremin music instrumentist

As práticas musicais, a partir do século XX, com a possibilidade de novas experimentações no campo da música eletrônica e, principalmente a partir dos anos 50, trouxeram uma certa ansiedade para novas possibilidades de criação. Independente do período da história da música, a busca pelo novo sempre existiu, trazendo algum tipo de mudança substancial.
 

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